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Pernambuco, 24 de junho de 2026

Política

A transferência de tecnologia para a agricultura do semiárido

​Tenho comentado alguns vezes neste espaço que a meu ver, os próximos dez anos deverão ser a década das mudanças no perfil da economia do semiárido desde que todos concordem em fazer o que lhe compete

Postado em 24/11/2022 20:00

Colunista

Geraldo Eugênio


A situação de penúria do sistema estadual de extensão rural

A baixa capacidade de ação das instituições de extensão rural e pesquisa tem causado um forte dano à vida do mini e pequeno produtor, uma vez que esses, tradicionalmente, tinham como agente de diálogo os extensionistas das Ematers.

A maioria dos governos estaduais, mesmo em estados ricos, resolveram de forma apressada abandonarem suas empresas de extensão alegando que a iniciativa ou o terceiro setor estaria apto a substitui-la. Reduziu as instituições que deveriam levar o conhecimento ao campo como emissoras de DAP´s e fiscais para o seguro rural. Os técnicos que foram desprezados quanto à atualização de conhecimento e a infraestrutura de mobilidade e rede, culminando com o isolamento devido à pandemia, passaram a ser atores secundários no campo.

O pior de tudo é que os governos esquecem de que há poucas instituições estaduais  com a capilaridade do serviço de extensão mesmo estando em situação de penúria e abandono.

Mudou o patamar de conhecimento, mude-se a prática

Uma coisa merece ser posta. A maioria das instituições mesmo vendo os ventos das mudanças baterem à porta não se qualificaram. São raras as que investiram em tecnologia em  seus escritórios com o que existe de mais atual em termos de internet. Também foram vagarosas em proverem seus técnicos e bases com equipamentos modernos e capazes de realizar as tarefas para as quais são insubstituíveis atualmente.

Grande parte dos gestores vêm o atendimento aos moldes do que eram as visitas presenciais há duas décadas e não se aperceberam de que o produtor, mesmo os menores, contam com smartphones bem mais atuais do que os técnicos que deveriam estar assistindo-os.

Há como se confiar nas instituições públicas de extensão e pesquisa e desenvolvimento?

Em consequência desse descaso deliberadamente posto em prática, existe o que fazer com as instituições que fazem uma secretaria de agricultura estadual? Certamente que sim, desde já considerando-se que mais importante do que a reconstrução física de prédios automóveis e rede, é o desenvolvimento intelectual dos que estão envolvidos com a transmissão do conhecimento e boas práticas e um foco claro no que representa a presença de profissionais das ciências agrárias e sociais na educação continuada e qualificação da juventude rural.

Em se pretendendo contar com instituições com capacidade de resposta, terão que se debruçar sobre o problema, contar com gestores que conheçam o campo e dar o apoio necessário à funcionalidade deste segmento.

Tenho comentado alguns vezes neste espaço que a meu ver, os próximos dez anos deverão ser a década das mudanças no perfil da economia do semiárido desde que todos concordem em fazer o que lhe compete. Chamar para si a responsabilidade de se ter uma extensão rural nos moldes do que existe em uns poucos estados e capacitar a instituição a partir do servidor que se encontra no mais distante distrito ao gestor de que a responsabilidade deve ser compartilhada por todos e não há lugar para os que insistem em crer que o mundo parou. Nem parou nem a terra é plana. Os sistemas se encontram em movimento.

O que se espera do novo Presidente e Governadores

Além do que se espera do Presidente da república e do governo federal, uma responsabilidade maior pode ser atribuída aos governos estaduais. Primeiro devem mudar o discurso e encararem o problema que tem à frente, para de propalar o falso argumento de que as instituições federais substituirão seus entes equivalentes no cenário da extensão rural e da pesquisa. Esta é uma premissa falsa e desprovida de uma mínima lógica.

As mudanças ou os desastres ocorrem no nicho local. Nos municípios ou em suas localidades, vilas e distritos. Sendo assim, por exemplo, é falsa a premissa de que a Embrapa, por exemplo, resolverá os problemas de todas as cadeias produtivas e dos problemas a elas inerentes, onde quer que estejam ou que um ente, no momento inexistente, seria capaz de coordenar uma tarefa nacional de formatação de uma nova estrutura para as instituições de pesquisa e extensão, quase todas fundidas nas últimas décadas.

Em os governos estaduais cumprindo com o seu papel, ele potencializará o trabalho das universidades, institutos federais, escolas privadas, bancos de fomento, os entes do Sistema S, como o Sebrae e o Senar.

Ao se ausentar de sua ação e esperar que o governo federal assuma o papel de financiador, coordenador, gestor das instituições estaduais, os estados estão dando às costas ao homem do campo e deixando que literalmente tentem atender suas demandas com quem bater à porta, o que não é correto.

Não seria o momento de se estabelecer um pacto pelo conhecimento no campo?

Em vários momentos este arranjo foi tentado. Ainda nos anos setenta quando ainda existia a ASBRAER, ou depois quando através do programa PAC ou de aportes diretor do governo federal, muito foi investido em termos de infraestrutura em instituições que já se encontravam enfermas. Os pontos críticos foram evitados. Nenhum governador se comprometeu em ter como prioridade o campo e muito menos as instituições de pesquisa e extensão. Caso se decida investir às cegas sem um compromisso com os governadores ou sem um rumo para as entidades estaduais, isto pode ser feito, mas com uma chance mínima de sucesso.

Delinear com os segmentos envolvidos um programa quadrienal para o campo e as pessoas que nele habitam poderá se constituir em uma melhor opção. Algo que exigirá mais trabalho, mas, com certeza, será aquela que mais rápido responderá às demandas do agricultor do Semiárido.

 

1Professor Titular da UFRPE-UAST

Recife 23 novembro de 2022